Rosa, 95 anos

Rosa · 95 anos

E ele respondeu que às vezes vale a pena dizer que sim

Fotografia
João Azevedo
Texto
Ana Amorim
Publicado
Outubro de 2025

«Ter 95 anos é ter saúde, então como acha que cheguei aqui? Tive muita sorte, não tive muitas preocupações, mas também porque casei com um bom homem. Ele tratou-me bem. E pensar que eu que quase o despachei, sabe? Ele teve de andar muito atrás de mim, mais de dois anos. Eu via-o na rua e já sabia que ele ia começar a tentar levar-me a dançar e fugia dele, metia-me do outro lado da estrada. Gostava de homens altos e ele era baixo, pronto, era o que era, não queria nada com ele. Mas ele não desistiu, tanto insistiu, tanto insistiu, que lá me deixei de coisas e olhei bem para ele. Começou a ir lá a casa e namorávamos à porta de casa. Bem, não era só à porta de casa, até tenho vergonha, mas também íamos para o palheiro, ele sugeriu e eu não lhe resisti. Felizmente, tratou-me bem, era tão apaixonado por mim. Fomos tão felizes. Ele morreu cedo, mas nunca mais houve ninguém, foi aquele e acabou-se. Estivemos mais de vinte e cinco anos juntos. Não sei ler nem escrever, mas depois do meu marido morrer fiquei sozinha a gerir uma taberna e lá consegui. Não me deixei ficar, então, tinha de ser, havia clientes difíceis, mas nada que não se resolvesse. Não me arrependo de nada, é preciso ter juízo e gozar a vida e eu fiz isso, tive juízo, mas aproveitei, gostava de tanto de bailes. Lembro-me bem dos bailes, era do que gostava mais.»